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Entrevista com Jorge Germanos
11/5/2006
As pesquisas sobre a história da família Duailibi acontecem desde a década de 70. Foi justamente nesse período que o estudioso Jorge Germanos (1902-2002) nos concedeu essa entrevista. Confira a entrevista na íntegra.

As pesquisas sobre a história da família Duailibi acontecem desde a década de 70. Foi justamente nesse período que o estudioso Jorge Germanos (1902-2002) nos concedeu essa entrevista. Nela, o autor da obra “A sombra do cedro” nos conta sobre as origens da cidade libanesa de Zahle, o legado fenício à humanidade, a imigração libanesa para o Brasil, entre outros tópicos de grande importância. Leia abaixo a entrevista na íntegra.


FD: Quando foi fundada Zahlé? Há alguma lenda em torno da fundação ou origem de Zahlé?
JG: De acordo com historiadores libaneses, notadamente o grande historiador e filólogo Issa Iskandar Malouf – autor de algumas obras como a “A História da Cidade de Zahle” e “História das Famílias da Síria e do Líbano”– Zahle é uma cidade muito antiga. Sabe-se, por exemplo, que quando os romanos ocuparam o Líbano e construíram o templo de Baalbeck (a 30 km de Zahle) a cidade já era um lugar florescente.

Buscas arqueológicas nos arredores de Zahle, especialmente no bairro de Karak, encontraram sarcófagos onde havia antigamente um templo romano. Dizem as lendas que Noé foi enterrado naquelas imediações, pois, até hoje a uns 4 ou 5 km da cidade encontra-se o local denominado “Túmulo de Noé” (Karak Noe). No entanto, a Zahle atual não se encontra onde jazem os vestígios da cidade antiga. Atualmente, ela está edificada em um vale chamado “Wadi-El Bardauni”. Muitas das pessoas que a visitam acham que ela se parece com uma romã aberta, pois, os tetos das novas casas, edificadas por emigrantes zahliotas, sobretudo do Brasil, foram cobertas por telhas vermelhas, dando à cidade um colorido interessante.

A história de Zahle se liga intimamente à história do Líbano, pois ela era a maior cidade cristã do Oriente Próximo. Após as matanças provocadas pela Turquia, em 1860, Zahle sofreu uma grande sangria. Os drusos, instigados pela Turquia e ajudados por seus soldados, cometeram verdadeiros genocídios no Líbano, principalmente em três cidades – Dehir El Kamar, Hasbaya e Zahle – de população majoritariamente cristã. As potências européias obrigaram a Turquia a conceder ao Líbano autonomia, assinando um protocolo que lhe garantisse esse status. Entre as nações que firmaram o protocolo figuravam a Inglaterra, a França, a Áustria-Hungria, a Itália, a Rússia, a Alemanha, a Turquia e os Estados Unidos. Nesse acordo, o Líbano foi despojado da quase totalidade de seu território. O país foi destituído de cidades importantes de seu litoral como Beirute, Trípoli, Tiro e Sidon, assim como os vales e terras aráveis e férteis do Wadi-El Tai, das planícies do Bekaa a Baalbeck, até mesmo Zahle – que foi dividida ao meio, tornando-se uma cidade fronteiriça. Neste período, Zahle tornou-se um centro de comércio e de abastecimento em todo o país.

A cidade era considerada um centro eminentemente cristão de hegemonia melquita, maronita e ortodoxa. Os protestantes só chegaram no começo do século XX, formando uma pequena comunidade de missões evangélicas americanas.

Os habitantes de Zahle, destemidos e pioneiros, iam até a Mesopotâmia trazendo manadas de carneiros para abastecer não só seu território como todo o Líbano. Zahle era, portanto, um centro de erradicação comercial. Entre fins do século XIX e início do XX, destacava-se a confecção de tecidos, uma grande produção de curtumes e artefatos de couro, além dos seus famosos vinhedos onde se preparava a célebre bebida libanesa, o Arak, e a tão famosa a uva passa.

FD: Quais as famílias importantes de Zahle?
JG: Ligados aos governantes da época feudal, destacamos os Hajain, os Moussalem, os Aboukater, os Malouf, os Gorra, os Helal, os Braidi e os Scaf. Atualmente, as famílias mencionadas pertencem à grande população de Zahle, cuja liderança se fez diluir, sendo compartilhada com outras famílias locais. Podemos atribuir isso a imigração libanesa, que minou as bases do feudalismo cristão, fomentando novas lideranças baseadas na cultura e no poder econômico.

FD: Qual o tipo de família que se desenvolveu naquela sociedade?
JG: Em termos gerais no Líbano cristão predominavam famílias do tipo patriarcal. Esses núcleos familiares obedeciam rigorosamente à orientação espiritual e temporal dos designatários de suas respectivas ramificações – maronita, melquita e ortodoxa.

FD: Para o senhor a religião era um fator de coesão social ou motivo de discórdia?
JG: O Líbano foi – excetuando-se a Palestina onde Cristo nasceu e pregou – o primeiro país a abraçar o cristianismo. Não esqueçamos, pois, que o Sermão das Montanhas foi pronunciado nas colinas libanesas, perto do Sidon. Os apóstolos partiram para a conquista do Ocidente a fim de ganhar fiéis para o cristianismo – sem exceção dos portos fenícios de Sidon, Tiro, Biblos, Beirute, Tabaya, entre outros – pregando a nova mensagem sagrada.

O advento do islamismo no Líbano ocorre por volta do ano 637 d.C. Essa religião ficou sempre restrita ao litoral libanês e à região de Baalbek e suas adjacências, sem jamais conseguir adentrar em Axeuran – o baluarte do cristianismo maronita.

Até a queda de Constantinopla, o Líbano viveu uma era de certa estabilidade e equilíbrio, com as suas diversas seitas e religiões.

Ao ser anexado ao império otomano, o islamismo foi fortalecido.

Os turcos que tinham por lema “dividir para dominar”, fomentavam as rivalidades, para não dizer inimizades, entre os adeptos das duas principais religiões no Oriente Próximo: o Cristianismo e o Islamismo. Provocavam dissenções e lutas entre os habitantes do Líbano e da Síria, que culminaram nas matanças ocorridas nas décadas de 40 e 60 do século XIX. A Turquia acirrava a inimizade entre cristãos e muçulmanos que, antes das Cruzadas, desfrutavam de uma coexistência não totalmente pacífica, mas tolerante.

Sob o pretexto de resguardar as minorias cristãs, a França se intitulou protetora dos maronitas; a Áustria-Hungria, dos católicos; a Rússia, dos gregos-ortodoxos; e a Inglaterra, dos drusos. Tudo isso era pretexto para dar direitos às intervenções destas potências, na esperança de que alguma delas tomasse parte na divisão dos espólios.

FD: O que o senhor pode nos falar sobre os melquitas?
JG: Trata-se de uma ramificação católica apostólica romana. O termo melquita significa seguidor do Malik (imperador). Foi uma cisma ocorrida entre os católicos e ortodoxos. No Oriente Próximo, podemos destacar duas capitais de culto melquita: Zahle, no Líbano e Yabrud na Síria. O rito melquita segue o rito grego, enquanto que os maronitas adotam o aramaico na sua liturgia.

FD: O que o senhor sabe a respeito da imigração libanesa?
JG: Falar da imigração libanesa seria como se alguém propusesse a estudar a história da evolução da sociedade humana nos últimos 6000 ou 5000 anos.

O Líbano atual é parte do que foi a antiga Fenícia. Quando falamos Fenícia referimo-nos, evidentemente, à navegação, ao alfabeto, ao arado, às construções em pedra, a fundição de metais, da fabricação de vidro, etc. Afirma-se que os fenícios foram os primeiros homens a usar o mar como meio de comunicação entre os povos, transportando de e para a Fenícia tudo quanto o homem produzia e necessitava para sua sobrevivência.

O Egito conheceu os fenícios, como também os gregos, que mais tarde foram seus aliados, notadamente os cretenses. Na mitologia grega, foi Cadmo que quando mandado para a Beócia em busca de sua irmã Europa, levou consigo o alfabeto, o arado e todas as demais conquistas dos fenícios, como a fundição de metais, a construção em pedra, de navios e outros artesanatos.

No livro “Povos, Mares e Navios”, escrito pelo israelense Zvi Herma, diretor do museu marítimo de Haifa, encontra-se a afirmação de que os fenícios conheceram todas as costas africanas, da Europa, do Mar Negro, através do estreito de Bósforo, do Oceano Índico, partindo dos seus estaleiros, no Mar Vermelho, de Assion-Gager, como também palmilharam todo o Atlântico, atravessando as Colunas de Hércules, denominadas atualmente de estreito de Gibraltar. Conheceram também as ilhas de Madeira, as Canárias, chegando possivelmente ao Brasil, como afirma Bernardo da Silva Ramos, na sua obra “Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica”.

Navegar era o cotidiano dos fenícios, daí a razão porque seus filhos libaneses, oprimidos por circunstâncias adversas, preferiram emigrar a continuar uma vida miserável, imposta pela Turquia em 1860.

A imigração do Líbano em grande escala começou após os morticínios provocados pela Turquia entre 1840 e 1860. Muitas vezes, os libaneses dependiam de agentes de viagem inescrupulosos que os despachavam como mercadorias nas companhias que mais lhes proporcionavam lucro. Por isso foram ora para a Austrália, ora para a África, ora para as Américas. Logo que se instalavam nestes países, comunicavam-se com seus parentes e concidadãos e estabeleciam novas correntes migratórias.

A imigração – que foi imposta por circunstâncias políticas do Líbano – fez com que os libaneses se espalhassem por todo Novo Mundo (da América do Norte à do Sul). Hoje seus descendentes são cidadãos de todos os países americanos.

Antigamente, os libaneses vinham para cá a fim de levantar alguns recursos e voltar ao seu país de origem, onde geralmente deixavam suas famílias, esposas e filhos. Os que vinham solteiros ambicionavam retornar ricos, para adquirir maior status ao voltarem ao Líbano.

Um dos motivos da fixação dos libaneses nos países de imigração decorreu das duas guerras mundiais, especialmente da Primeira Grande Guerra. Um ponto importante a ser observado é que sendo o libanês de origem e influências fenícias, ele trazia em sua formação a predisposição ao universalismo, característica dos marítimos.

Por isso, a sua tendência ao mimetismo auxiliou-os na sua integração ao novo meio, diferente do seu de origem, fazendo com que reagissem como se tivessem sempre vivido aqui. Haja vista a situação atual de filhos de libaneses no Brasil.

Falando objetivamente da influência da imigração libanesa no Brasil, podemos afirmar que os imigrantes libaneses foram um fator preponderante no contexto sócio-econômico do Brasil, sobretudo nos estados da região Centro-Sul. Foram eles que, após os primeiros anos de adaptação, nas suas andanças e penetrações no interior brasileiro, vendiam suas bugigangas e quinquilharias às populações locais.

Dos primeiros zahliotas que chegaram ao Brasil, grandes famílias penetraram o Mato Grosso. Podemos citar, dentre outros, alguns nomes tradicionais: Dib Haikal Nemer, progenitor do professor Miguel Nemer, autor da famosa obra “Influências Orientais na Língua Portuguesa”.

Citarei, por ordem descendente, as seguintes famílias que habitavam entre Corumbá e Cuiabá: Boebaid, Boainain, Haddad, Lotfi, Metran, Gattaz, Geha, Maluf, Saba. Em Campo Grande encontramos a família Duailibi, há mais de oitenta anos radicada em Coxim e Cárceres, e só depois em Campo Grande. O pioneiro foi Suleiman Duailibi, cuja descendente é Julieta Duailibi.

FD: O senhor pode me dizer o que mais conhece sobre a família Duailibi?
JG: Conheço bem Wadih Duailibi. Libanês que. veio para o Brasil há mais de setenta anos. Ele dominava com fluência o inglês, o árabe, o francês e o português. Foi alto funcionário e associado da Salim Diab Maluf Companhia, importadora que fabricava, antes de 1914, gravatas e importava também a sua mercadoria da França e Itália.



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