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A presença libanesa
4/7/2006
Em artigo publicado na revista Carta do Líbano, Chales Lotfi, presidente da Confederação Nacional das Entidades Líbano-Brasileiras, comenta a importância da presença libanesa no Brasil.

A presença libanesa
Charles Lotfi

Corria o mês outonal de outubro de 1946, início do ano letivo no Líbano. Lembro-me de que era uma quarta-feira, dia da semana em que, pontualmente, o maior poeta e pensador do país, Said Akl, hoje ainda lúcido aos 95 anos, falava às três classes superiores do colégio. Falava sobre história, filosofia e acontecimentos mundiais. Naquela manhã, antes de iniciar sua aula, ele indagou se havia, entre nós, algum brasileiro. Levantei-me e identifiquei-me. “Muito bem, hoje quero homenagear um país que acolhe povos de diversas etnias para, por meio de um processo ímpar de integração cultural, construir uma sociedade aberta e cultura das liberdades”, dissse. O poeta-professor me perguntou, em seguida, das razões que levaram meu pai a emigrar para o Brasil. “Uma só, professor, a busca da liberdade”, respondi de pronto. Meu pai, a exemplo de uma imensa legião de jovens libaneses, não tolerava mais viver sob o regime opressor do império turco-otomano. No início de 1909, resolveu juntar-se aos seus tios, em Mato Grosso, onde atuavam desde 1880 em negócios ligados à navegação fluvial.
Em 1947, depois de pouco mais de sete anos residindo no Líbano, eu regressava ao meu estado natal, onde minha família tinha fincado raízes em Corumbá e Cuiabá. De início, surpreendi-me com o grande número de médicos filhos de libaneses. Também eram o delegado de polícia, vários professores do Colégio Estadual, jornalistas e políticos filiados a diversos partidos. Mas o que mais me chamava a tenção era o período escolar, limitado à parte da manha, enquanto no Líbano o estudante dedicava tempo integral aos afazeres escolares e colegiais. No ano seguinte, o país e toda a comunidade libanesa no exterior comemoravam a vitória de Charles Malik, representante do Líbano junto a Organização das Nações Unidas (ONU), pela aprovação da Declaração Universal dos Direitos do Homem na Assembléia Geral da instituição. Para nós, líbano-brasileiros, a alegria era dupla: um intelectual brasileiro, Austregésilo de Athayde, despontava como co-artífice do mais importante documento institucional do século 20. Trata-se, sem dúvida, de uma obra líbano-brasileira. Decorridos alguns anos, já em 1968, vi-me bafejado pela sorte e radicado com minha família em Belo Horizonte. Identifiquei-me logo, no mineiro, um jeito de ser comedido, reflexivo e responsável, comum ao montanhês - seja ele do Brasil ou do Líbano.
Envolvi-me logo com imigrantes da comunidade libanesa na feliz aventura da criação da Fundação Libanesa de Minas Gerais (Fuliban)- que hoje abriga um centro de assistência a adolescentes, atendendo cerca de 650 pacientes por mês, sob a supervisão científica da médica hebiatra Marília de Freitas Makaroun. Minas foi o destino das primeiras levas da emigração libanesa. Tanus Jorge Bastani, fundador da União dos Advogados do Brasil (UAB), entidade precursora da Ordem dos Advogados do brasil (OAB), conta, em dos seus livros, que conheceu, nos anos 20, na Zona da Mata, um ex-escravo, de idade muito avançada, que havia trabalhado, quando jovem, em torno de 1850, na fazenda de um libanês chamado Náji, chefe de uma numerosa família. Relata também que, logo depois da proclamação da Independência do Brasil, Dom Pedro I teve que vir a Minas, à frente de bravos cavaleiros, a fim de debelar levantes contrários à separação do país de Portugal. À margem do Rio das Velhas, descansou na pousada de um jovem libanês, chamado Zacarias, que o comoveu com o relato que fez do sofrimento das populações que viviam sob o jugo turco-otomano. Também nunca é demais contar o episódio da venda da casa em São Cristóvão, Rio de Janeiro, do rico comerciantes libanês Elias Antun Lubus, que assinava Elias Antônio Lopes, a Dom João VI, aconteceu mal o imperador chegara ao Brasil, em 1808.
Em Minas, os líbano - brasileiros estão presentes hoje em todas as latitudes do estado. Pontificam-se nos mais diversos segmentos de atividades profissionais. Construíram, por exemplo, a maior locadora de carros da América Latina, estacionamentos e redes de supermercados que geram inúmeros empregos e, além disso, produzem o melhor café do Brasil: são todos cidadãos fiéis e orgulhosos de sua pátria brasileira. Todavia, todos nós lamentamos a permanência de alguns resquícios de preconceito: quando em um universo de 10 milhões a 12 milhões de cidadãos ocorrem dois ou três casos de atos ilícitos, fatos isolados que não são absolutamente suficientes para manchar a honra , a seriedade e a dignidade desses brasileiros que mantém elos culturais e afetivos com o Líbano, sentimo-nos, com razão, magoados. Nada justifica a vinculação de um deslize de qualquer cidadão com o pátrio de sua origem. Nossa presença no Brasil perde-se nos tempos. Aqui chegamos, aqui construímos, aqui morremos honrando a terra que cobrirá nossos corpos.

*Presidente da Confederação Nacional das Entidades Líbano - Brasileiras.



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