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O livro "Porta do Sol"
7/4/2008
Leia crítica de Antônio Gonçalves Filho (da Agência Estado) sobre o novo livro do escritor libanês Elias Khoury, "Porta do Sol".

Em “Porta do Sol”, o escritor libanês Elias Khoury cria uma saga que dá voz aos dois lados dos conflitos políticos na região palestina

Parece compreensível que o primeiro épico contemporâneo sobre a saga palestina seja escrito por um libanês, mas o fato de o Líbano ter galvanizado a questão da identidade de um povo não justifica por si a fama de “A Porta do Sol”, o delicado monumento literário de Elias Khoury, que completa 60 anos em 2008.

Ele conseguiu o que poucos autores envolvidos com temas políticos conseguem: unir a razão militante com a sensibilidade de quem vê no “outro” a própria imagem refletida no espelho.

Para escrever “A Porta do Sol”, Elias Khoury, um homem de esquerda, formado segundo os princípios do cristianismo, teve de se livrar de todos os estereótipos - palestinos e israelenses. Ao contrário de outros autores árabes, ele procurou ver o “outro” como fruto de uma experiência tão amarga como a dos refugiados nos campos palestinos.

No entanto, reconhecer a alteridade não significa virar o outro. Khoury é adepto do monólogo interior, que marca parte de sua longa produção literária. Afinal, é só começar o diálogo para passar à discordância. Então, a solução encontrada pelo autor em “A Porta do Sol” foi criar um narrador que fala sozinho. Ou melhor: com um outro que pode estar morto. Ele fala para se convencer que ainda está vivo.

O “outro”, no caso, é Yunis, herói da resistência palestina, um mentor em coma para o qual o narrador Khalil, paramédico e seu filho espiritual, conta histórias do povo palestino. Como uma Xerezade extemporânea, Khalil atravessa mil e uma noites de agonia tentando manter viva a chama do velho combatente que, na juventude, se enamora e casa com a jovem Nahila. Separados - ele vive no campo de refugiados de Chatila, ela, como cidadã israelense, na Galiléia -, os dois se encontram clandestinamente numa caverna, a tal “porta do Sol” do título do livro, cuja edição brasileira foi traduzida diretamente do árabe por Safra A-C Jubran.

Ao contrário do herói em coma, o narrador é reticente quanto à troca de identidade dos “fidayyin” (membros das milícias armadas palestinas constituídas em 1948). Recusa trocar seu nome quando nomeado médico do campo de refugiados, justamente por desconfiar que o sacrifício da vida por outro - o significado da palavra “fida’iy” - não passa de licença poética. Khalil é um pouco como Khoury, para quem a literatura não passa de “uma forma de o escritor manter um diálogo com os mortos”. Esse é seu poder e também sua fraqueza, justamente porque, ao contrário da religião, não há eternidade na literatura, mas tempos bem definidos como presente, passado e futuro. É isso o que diz Khalil pela boca de Khoury.

Sobre a causa palestina, por exemplo, o personagem do paramédico - ou será o autor? - lembra que o herói em coma viveu por ela, mas não para dominar a terra, porque “isso é uma ilusão”. O militante lutou, sim, pela mulher que amava. Antes de tudo, Khoury e seu herói da resistência são humanistas que acreditam na história. Tanto que o escritor, um incansável pesquisador, estuda há anos o movimento sionista e a questão judaica para entender a sociedade israelense.

“A Porta do Sol” é um manifesto que prega não a tolerância, mas o diálogo real entre judeus e árabes, o que irritou alguns críticos de Israel, especialmente por conta do cruzamento entre história real e criação literária. Khoury deu o troco. Disse em sua defesa que a literatura israelense, com exceções, costuma reduzir os palestinos a beduínos estúpidos ou marginais. E por que os escritores de Israel não conseguem enxergar realmente o verdadeiro palestino? “Porque pisam em sua sombra”.

Khoury não pisa em ninguém nesse livro lançado há dez anos e só agora traduzido para o português. Criado no lado oriental de Beirute, predominantemente cristão, o escritor freqüentou uma escola protestante e foi para Paris defender uma tese sobre os conflitos civis do Líbano entre 1840 e 1860, quando drusos e maronitas passaram ao confronto, atiçados pela competição entre os franceses (pró-maronitas) e ingleses (que defendiam os drusos). A literatura teve de esperar 11 livros até que Khoury abordasse pela primeira vez a questão palestina num livro de ficção, justamente “A Porta do Sol”.

Nele, quase tudo é metafórico, a partir mesmo da orfandade do paramédico Khalil, encontrado pelo herói em coma quando ainda um adolescente. O pai do garoto é morto por seguranças libaneses, a mãe desaparece no Jordão e o garoto não passa de uma sombra andante que se estrebucha no palco dos “fidayyn” e é rejeitado até na China. São todos - ele e Yunis incluídos - espectros ibsenianos vagando por uma terra que nem mesmo existe.

As histórias que Khalil/Xerezade conta são para espantar o terror da morte em vida, a perda da identidade no território do indiferenciado. Khalil é um Orestes contemporâneo vingando a morte do pai com essa faca afiada que é a história do povo palestino.

No fim, como diz o escritor brasileiro Milton Hatoum na orelha do livro, o que resta é o amor, porque essa história está entrelaçada com tantas outras que sair desse “labirinto de batalhas, tragédias e humilhações” é quase impossível. O próprio Elias Khoury sentiu isso na carne. Tomou parte da guerra civil libanesa, foi gravemente ferido em combate e quase perdeu a visão.

Antonio Gonçalves Filho
Da Agência Estado



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