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Imigrantes Judeus no Oriente Médio
1/4/2011
Memórias, imagens e documentos compõe o estudo de Rachel Mizrahi, que buscou em suas origens a inspiração para que a história da própria família não fosse esquecida. O resultado é um livro bem produzido e um documento histórico valioso.

Foi para salvar do esquecimento a que pareciam condenados centenas de imigrantes judeus que a pesquisadora Rachel Mizrahi dedicou-se por dez anos a ouvir suas histórias e a documentá-las. O resultado, inicialmente apresentado como tese de doutorado no Departamento de História da USP, foi transformado em livro: Imigrantes Judeus no Oriente Médio, São Paulo e Rio de Janeiro, publicado pela Ateliê Editorial, em 2003.
Fontes escritas tradicionais como atas e estatutos de sinagogas, discursos, relatórios e jornais foram consultadas para recompor essa história,assim como a metodologia da história oral, que consiste no registro de depoimentos dos personagens vivos, que narram suas memórias e histórias de vida. A partir do depoimento daqueles que a viveram, a pesquisadora conta a história da imigração judaica no Brasil, o que pode revelar aspectos pouco conhecidos do imaginário coletivo dessas comunidades, aquilo que os documentos não podem contar. Com homens e mulheres revolvendo suas lembranças, foram registrados os sentimentos de perda que tinham ao deixarem o Oriente, o momento da despedida, as primeiras impressões sobre o Brasil, a nova casa, a construção da sinagoga, a preocupação em preservar os costumes, o fantasma que eram os casamentos mistos entre judeus e não-judeus.
A epígrafe escolhida “As lembranças... são nosso único patrimônio”revela a importância da memória no livro. E parece ter sido um desejo de reconstruir o próprio passado, um encontro consigo mesma a partir das raízes familiares Rachel é filha de imigrantes judeus do Oriente Médio , o que motivou o trabalho da pesquisadora. A idéia surgiu de um filme que contava a história dos judeus no Brasil. “Vi que eles omitiam a existência da comunidade da Mooca, da qual eu fazia parte”, conta. “Éramos um pequeno grupo, mas nós existíamos. Percebi que, se não fizesse esse trabalho, esse grupo, de cerca de 50 famílias, simplesmente cairia no esquecimento.
O livro, dessa maneira, acaba interpretando a imigração judaica como um fenômeno múltiplo. A partir dos relatos e documentos pesquisados, construiu-se um importante estudo sobre a imigração dos judeus do Oriente Médio para os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Percebe-se que os judeus não formavam um grupo único e homogêneo. Suas raízes culturais, assim como suas trajetórias, eram distintas.

(com informações do site: www.usp.br)
Prefácio


O estudo Imigrantes Judeus do Oriente Médio: São Paulo e Rio de Janeiro, de Rachel Mizrahi, inaugura uma nova etapa na historiografia brasileira sobre imigração judaica, aqui interpretada como um fenômeno múltiplo. Múltiplo se avaliado segundo o fluxo de grupos culturais distintos: asquenazis, sefaradis, orientais e outros grupos menores. Os imigrantes aqui apresentados não formam um grupo monolítico, homogêneo, indiferenciado. Suas trajetórias são distintas, assim como suas estratégias de sobrevivência, ainda que vinculadas ao lugar de origem.

Este livro recupera, em especial, a memória dos imigrantes judeus oriundos das regiões árabes e dos sefaradis que, a partir de 1492, haviam se instalado em terras do Império Otomano. O fato de Rachel Mizrahi ser filha de imigrantes judeus do Oriente Médio, lhe garantiu critérios de observação participante, contato direto e pessoal com os sujeitos da história. Neste sentido, podemos considerar que esta publicação é, antes de mais nada, expressão do sentido de pertencimento e do compromisso da autora com a comunidade de seus pais, matrizes de sua inspiração e protagonistas desta história.

Como orientadora e colega de pós-graduação de Rachel Mizrahi, tive a oportunidade de acompanhar sua trajetória de pesquisadora que, de forma vibrante, investiu na construção da memória individual e coletiva da comunidade judaica brasileira. Durante estes anos todos tivemos em comum o mesmo objeto de estudo — o povo judeu na Diáspora — e a mesma escola. Sua formação de pós-graduanda se fez, assim como a minha, enquanto discípula de Anita Novinsky que desde a década de 1970 é responsável junto a Universidade de São Paulo pela formação de um grupo de historiadores dedicados a "mapear" a presença de cristãos-novos e judeus no Brasil, em diferentes tempos históricos. Seu doutorado, então sob a minha orientação, concentrou-se na reconstrução do processo de formação das modernas comunidades judaicas brasileiras, priorizando a presença dos judeus sefaradis e orientais em São Paulo e Rio de Janeiro. Neste sentido, podemos afirmar que formamos uma "escola", distinta por gerações, dedicada a discutir o tema da intolerância e da liberdade sob o viés da História das Mentalidades.

Em sua dissertação de mestrado — A Inquisição no Brasil: Um Capitão-mor Judaizante, Mizrahi reconstituiu, a partir da figura de Miguel Telles da Costa, a pequena comunidade de cristãos-novos judaizantes radicados na Capitania de "Nossa Senhora de Itanhaém, com sede na vila de Parati, conhecida como o porto do ouro". A reconstrução histórica, baseada em processos inquisitoriais, se fez em torno das relações sociais que envolviam a comunidade cristã-nova radicada no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Parati na primeira metade do século XVIII1.



imagem: Imigrantes judeus no Brasil, imagem retirada do livro Imigrantes Judeus do Oriente Médio, de Rachel Mizrahi



Continuando seus estudos sobre a história dos judeus em São Paulo e Rio de Janeiro, Mizrahi voltou-se para a sua própria comunidade: a dos judeus sefaradis e orientais que — assim como os cristãos-novos durante a época moderna — deixaram sua terra de origem em busca de melhores oportunidades de vida. Ambos os grupos, ainda que em períodos históricos distintos, vivenciaram processos de ruptura e (re)adaptação. O sentimento de desenraizamento emerge enquanto fenômeno que altera os sentimentos de identidade atrelado a idéia de "perda": perda da família, de bens, costumes etc. É aqui que a pintura e a fotografia cumprem a função de documentos-referência, tanto para o "lado de lá" (o antigo Império Otomano) como para o "lado de cá" (o Brasil contemporâneo).Os depoimentos orais contribuem para recuperar experiências múltiplas registradas sobre fatos comuns: arrumar as malas, a hora da partida, o momento da despedida, o primeiro "olhar" sobre o Brasil, a nova casa, o primeiro emprego, a inauguração da sinagoga, os namoros permitidos e os casamentos proibidos.

Ao longo de seu texto, Mizrahi demonstra que a lembrança é dinâmica que ela vai se renovando no espaço das vidas num (re)arranjo de emoções grupais ou familiares. Para isto basta ler as passagens em que os protagonistas se referem ao "fantasma dos casamentos mistos" e aos "conflituosos processos de conversão" ou então, acompanhar as alterações de nome da Sinagoga da Abolição enquanto preocupação da comunidade em reafirmar sua identidade sefaradi. Fundada em 1929 como Comunidade Sephardim de São Paulo, recebeu várias denominações: Sinagoga Israelita Brasileira do Rito Português (década de 1940), Templo Israelita Schaar Hashamaim (década de 50) e Templo Israelita Brasileiro OhelYaacov (1963).

Ao constatarmos certas diversidades grupais, nos damos conta que as modernas comunidades judaicas radicadas no Brasil têm pontos comuns em suas trajetórias, ou seja, iniciaram-se partir de um núcleo improvisado diante da necessidade de construir um espaço particularmente judaico onde pudesssem constituir o minian. Assim, na história de cada uma das instituições dos judeus radicados em São Paulo e no Rio de Janeiro, sobrevivem resquícios de diferentes lideranças modeladas ora por valores sefaradis e asquenazis, ora por movimentos de emancipação judaica. Tais diversidades na composição interna da comunidade, acabaram por agrupar seus membros em diferentes associações, escolas clubes recreativos e sinagogas. Percebemos que a imigração judaica, ao longo do século XX, vai deixando de ser uma ação de grupos desamparados para se transformar numa rede composta por indivíduos mobilizados por estratégias de superação social2. No caso dos judeus orientais, por exemplo, fica evidente como cada família procurou se agregar em espaços fundados na procedência comum: Istambul, Sidon, Rodes, Esmirna, Salônica,Yafo, Safed etc. A chave está na identidade destes protagonistas que, a partir de uma rede de relações sociais e econômicas, influenciaram o mercado de trabalho e a cultura brasileira. É neste contexto que percebemos a duplicidade de sentimentos mesclados pelas sensações plenas de pertencimento e de desenraizamento.

Enfim, é a história vivida (e narrada) por estes imigrantes judeus do Oriente Médio que dá à Autora os elementos básicos para a "construção" da memória da comunidade judaica em São Paulo e Rio de Janeiro. A memória, neste caso, recompõe a relação passado/presente garantindo para o futuro a sobrevivência das lembranças: o lugar da memória. Coube a Mizrahi, enquanto membro do grupo-comunidade, fixá-las por escrito em uma narrativa formal. É quando se configura "a memória coletiva que envolve memórias individuais sem, entretanto, se confundir com elas" , como enfatizou Maurice Halbwachs em sua obra Memória Coletiva. Ao cruzar os registros históricos (atas, correspondências, ofícios, lista de sócios, estatutos, imprensa e diários pessoais) com os depoimentos dos principais representantes do núcleo sefaradi de São Paulo e Rio de Janeiro, a Autora conseguiu recompor uma "espécie de cadeia de pertencimento" onde todos se (re)conhecem com parte de um todo. Neste caso, autora e obra se prestam como reforço para o exemplo dado por Pierre Nora, que considerou os judeus como um grupo-comunidade chamando-os de "povo da memória"

Maria Luiza Tucci Carneiro
Universidade de São Paulo
São Paulo, 2003

Maria Luiza Tucci Carneiro
Universidade de São Paulo
São Paulo, 2003



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