História Antiga e Medieval

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História do Líbano
História Antiga e Medieval

Da Pré-História aos Fenícios

O Oriente Médio é o berço da humanidade. De lá fluíram conhecimentos sobre agricultura, domesticação de animais, a roda, a invenção da escrita (cuneiforme e hieróglifos), a irrigação, os primeiros códigos e grandes contribuições para a arquitetura.

Por volta de 3.000 a.C. o litoral do Levante – Líbano, a Síria e a Palestina – era habitado pelos Cananeus, povo de origem semita. Assim, as primeiras referências ao Líbano, pelo seu nome, datam do terceiro milênio. Os cananeus vieram da Península Arábica pelo Bekaa, como beduínos. Mais tarde, os gregos chamaram-nos de fenícios – phoinix -, que significa vermelho púrpura nos tecidos, a mais importante indústria dos fenícios.

As cidades organizaram-se próximas do litoral e os fenícios caracterizaram-se como excelentes comerciantes. Cada cidade era independente social, política e economicamente – as chamadas cidades-estado. Biblos e Arado(no norte), Sidon e Tiro(no sul) foram as cidades mais famosas. Alternadamente, Tiro e Sidon exerceram supremacia sobre as outras.

Devido à sua localização privilegiada o Líbano sempre foi muito cobiçado. “A história do Líbano é ao mesmo tempo, um desfile de conquistadores e um desfile de civilizações, ou seja, a lenta formação de um sedimento de experiência e de sabedoria raramente igualado no mundo” (Mansour Chalita, p.57, 1976).

Do século XVII a.C. a XIII a.C. a Fenícia manteve relações comerciais com o Egito. Da cidade de Biblos exportava-se vinho, azeite e madeira. Importava-se, em contrapartida, ouro, papiro e metais.

No século XIV a.C. os hititas vieram do norte e invadiram a região. Depois vieram os arameus, os hebreus e os filisteus. Nesta época apareceram os primeiros documentos de escrita alfabética de Ugarit.

Em 1200 a.C. começa o domínio fenício. De 1200 a 900 a.C. foi a idade de ouro da Fenícia, tendo grande destaque as cidades de Arado, Trípoli, Jebail, Berito, Sidon e Tiro.

Os fenícios estabeleceram colônias por todo o Mediterrâneo. Cartago, fundada em 814 a.C., significa “Cidade Nova”.

Instalados na costa do atual Líbano, os fenícios tornaram-se navegantes e comerciantes. Trocavam seus produtos, principalmente púrpura e perfumes, com os outros povos do Mediterrâneo. Dedicaram suas terras à agricultura, em patamares ao longo das vertentes do Monte Líbano. Abriram estradas e exploraram os bosques. Desenvolveram a técnica do fabrico de vidro, base de seu intenso e importante comércio, e ainda praticaram as artes como a das jóias e moedas. Porém, a mais importante contribuição dos fenícios para a humanidade foi a criação do alfabeto.

No comércio, introduziram a oliveira e seus subprodutos na Grécia, África do Norte, Itália e Península Ibérica. Da Espanha traziam prata, ferro, estanho e chumbo; do Egito, linho; da Arábia, cordeiros e cabras.

A economia fenícia, após viver da agricultura, da pesca e do comércio exterior, estendeu-se para a indústria, alcançando superioridade na manufatura dos têxteis (a fiação e a tecelagem eram exercidas em casa) e na tinturaria de púrpura.

Invasões

Assírios: Séc. IX a VII a.C.
No século lX os assírios, comandados por Assurbanipal II, chegaram à Fenícia vindos da região do atual Iraque, e a dominaram. A dominação assíria foi dura e forte e os fenícios tentaram resistir ao preço de pesados tributos. Porém, sempre que a dominação se tornava tirânica demais, rebelavam-se. A primeira cidade a se rebelar foi Tiro, com a ajuda dos egípcios, mas os assírios derrotaram os egípcios e o monarca de Tiro teve que se refugiar em Chipre. Sidon foi outra cidade que se rebelou. Mas, no ano de 675 a.C. foi derrotada e destruída.


Babilônios: Séc. VII a VI a.C.

As cidades de Tiro, Sidon, Edon e Moab, Amon e Judá se uniram para combater os babilônios. Os longos anos de dominação babilônia fizeram com que os fenícios perdessem sua supremacia comercial, sendo substituídos no mar pelos gregos e cartagineses (de Cartago, antiga colônia fenícia) e, em terra, pelos comerciantes arameus.

Persas: Séc. VI a.C. a IV a.C.
Ciro, fundador do Império Persa, conquistou a Babilônia. Por conseguinte, a Fenícia passou para o domínio persa.
Dario I dividiu seu império em satrapias, sendo que a quinta abrangia a Fenícia, a Síria, a Palestina e Chipre; Sidon foi escolhida para ser a capital.

As cidades-estado continuaram com sua autonomia, conservaram seus reis e suas moedas. Por possuirem excelente frota naval, os fenícios colaboraram com os persas em seus empreendimentos militares. Participaram da guerra contra os gregos, em 480 a.C. Em 360 a.C. a cidade de Sidon se revoltou contra o domínio persa e a rebelião fez com que a cidade fosse dizimada.


Gregos: Séc. IV a.C. a I d.C.

Dario lll foi derrotado por Alexandre da Macedônia em Isso, ao norte da Síria.

Após invadir Damasco, Alexandre seguiu pelo litoral, e as cidades fenícias foram-lhe abrindo as portas. Somente a cidade de Tiro recusou-se a ser subjugada. Alexandre, decidido a conquistar Tiro de qualquer maneira, cooptou Sidon, Biblos e Arado para auxiliá-lo. Após resistir heroicamente por sete meses, Tiro foi invadida e seus habitantes mortos.

O período de dominação grega terminou com a morte de Alexandre. Seu império foi dividido entre seus capitães Ptolomeu e Seleuco. Seleuco dominou a região da Fenícia e formou o reino dos selêucidas.Durante este período de dominação, os fenícios colaboraram com os gregos/selêucidas a ponto do grego se tornar uma segunda língua e de vários comerciantes se transferirem para a região da Ática.

Quando o poder dos selêucidas entrou em declínio, as cidades de Arado, Tiro, Sidon, Biblos, Berito e Trípoli readquiriram sua independência e voltaram a cunhar suas moedas, tendo inclusive, inscrições bilíngues e a efígie dos selêucidas.


Romanos: I a.C. a IV d.C.
Pompeu conquistou o Oriente Médio em 63 a.C., incorporou a Síria, a Antioquia, a Palestina e a Fenícia (embora as principais cidades fenícias mantivessem seus governos e territórios). As montanhas, até então inabitadas, começaram a ter vilas e templos romanos.

Com Teodósio II (401-405) foi proclamada a Phoenicia Libanesia (Líbano), tendo como capital Emessa. Abrangia Heliópolis (Baalbek), Damasco e Palmira e a Phoenicia Prima (ou Marítima), cuja capital era Tiro e abrangia Sidon, Berito, Biblos, Trípoli, Acra e Arado.

A língua fenícia desapareceu, dando lugar ao aramaico (a língua do povo), ao grego (língua da cultura e do comércio) e ao latim (falado pelos soldados e funcionários públicos).

O Cristianismo, que nascera na Palestina, rapidamente se espalhou para a Fenícia. Cristo visitou Tiro e Sidon. Em Caná da Galiléia, Cristo fez seu milagre de transformar água em vinho.

Bizantinos: IV a VII d.C.
Constantino (306-337) transferiu a sede do Império Romano para Bizâncio e rebatizou-a de Constantinopla.

O Cristianismo intensificou sua penetração na Fenícia. No séc. IV, Berito já era considerada católica. Os deuses fenícios (Melkart, Hadad, Ashtart e Afqah) foram abandonados. Entre 551 e 555 uma sucessão de terremotos abalou a costa fenícia, inclusive Berito e Baalbek.


Omíadas e Abássidas: VII- XI d.C.

Dois anos após a morte de Maomé, seus exércitos deram início à expansão muçulmana. Comandados por Yazid Ibn Sufian e por Omar Ibn Al-Ass, contavam com um exército de 23.000 combatentes. Rapidamente dominaram Damasco (635), Hama, Beirute, Sidon, Tiro, Jerusalém (636), Alepo, Homs, Baalbek (637), Antioquia (638). Os persas e bizantinos, que dominavam a região, foram facilmente dominados pelos muçulmanos.

Em 661, a dinastia dos califas omíadas tomou o poder e instalou-se em Damasco, proclamando-a capital do novo império.

Na segunda metade do século Vll os maronitas, vindos de Alepo, na Síria, se estabeleceram na região da Montanha, no Líbano, que permaneceu fora do alcance dos conquistadores. Este fato fez com que a Montanha se tornasse refúgio para os povos perseguidos e oprimidos de outras regiões, independentemente de suas religiões, raças ou ideologias, características que nunca mais a abandonaria.

Em 750 a dinastia abássida tomou o poder e transferiu a capital de Damasco para Bagdá. Devido à intolerância política e aos altos tributos cobrados por essa dinastia, cresceu a emigração, para o Líbano, de cristãos, muçulmanos dissidentes (xiitas, ismaelitas, drusos) e dos grupos étnicos de persas e árabes que se estabeleceram no sul, assim como os maronitas haviam se estabelecidos no norte.

Desde essa época, o Líbano tem sido um mosaico de comunidades étnicas e religiosas diferentes. No século lX a dinastia abássida começou a perder sua autoridade dando lugar a dinastias locais.

Cruzados: Séc. Xl a Xlll
No século Xl o Estado e a sociedade islâmicos demonstravam sinais de fraqueza interna: o império estava dividido em soberanias regionais autônomas e entrava em colapso sua estrutura política e administrativa, construída por Bizâncio e pelo Irã sassânida. Na religião, grandes segmentos da população seguiam seitas heréticas.

Durante o século Xl e princípios do Xll, a fraqueza do império ficou demonstrada com uma série de ataques inimigos vindos de todos os lados. Na Europa, os cristãos avançaram na Sicília e Espanha, arrancando territórios das mãos muçulmanas, em uma onda de reconquista cristã que culminou com a chegada dos cruzados no Oriente Próximo. Foi nesse período de fraqueza e desunião do mundo muçulmano que, em 1096, os cruzados chegaram ao Levante. Tinham como bandeira a “guerra santa”, isto é, libertar os Lugares Santos da Palestina, dominada pelos turcos, das mãos dos infiéis muçulmanos, e como motivo, os maus tratos aí recebidos pelos peregrinos cristãos, já que nesta época eram frequentes as peregrinações à Terra Santa, realizadas em grupos ou individualmente por pessoas de todas as classes sociais. Esses peregrinos formavam um elo constante entre Ocidente e Oriente.

Os cruzados, auxiliados pelos cristãos maronitas, que haviam se estabelecido em território libanês desde o século Vll, dominaram e ocuparam a costa mediterrânea desde Antioquia até Jerusalém, passando por Trípoli, Batron, Beirute, Sidon e Tiro. Os Cruzados estabeleceram o Distrito de Trípoli e os feudos de Gibelet (atual Djebeil) e Batron que recebiam apoio da população cristã no norte do Líbano e eram protegidos por uma rede de fortalezas, sendo que a mais famosa é a ‘Hish al-Akrad’ (Crac des Chevaliers). No interior, os cruzados não tiveram a mesma sorte. Não conseguiram conquistar Alepo, Hamas, Baalbek e Damasco.

Após a derrota dos cruzados, os libaneses, cristãos em sua maioria, que os haviam ajudado, sofreram as consequências. Tiro, protegida por muralhas não pode ser tomada. Por sua vez, Sidon rendeu-se e foi destruída. Beirute também se rendeu. Os cruzados, além de não conseguirem seus objetivos, deixaram um legado de ódio entre muçulmanos e cristãos.

As guerras que se seguiram trouxeram ruínas e destruição. Philip Hitti em seu livro ‘Lebanon in History’, dá-nos a seguinte visão de Sidon. “Em 1107, a cidade comprou sua imunidade dos Cruzados que a cercavam. Tomada por Balduíno l em 1111, desmantelada por Saladino em 1187, reconquistada pelos Cruzados em 1197, recapturada e destruída pelos muçulmanos no mesmo ano, reconstruída pelos francos em 1228, devastada de novo em 1249, tomada e restaurada mais uma vez por Luís lX em 1253, assolada pelos mongóis em 1260, passou definitivamente às mãos dos muçulmanos em 1291 sob Al-ashraf, que a arrasou.”

Em 1291, após muita luta, os cruzados foram definitivamente derrotados e expulsos pelo sultão mameluco Qalaum.

Novas Invasões

Mamelucos: Séc. XlV
Eram escravos turcos que o Egito havia comprado e incorporado aos seus exércitos. Dominaram o Egito e, depois dos cruzados, dominaram o Oriente Médio. No século XlV estavam no auge do seu poder. Dominaram a Síria, o Líbano e a Palestina então divididos em 6 províncias. Para evitar tentativas de rebeliões, dividem o Líbano entre 3 dessas províncias.

Como a situação econômica está estreitamente ligada à política do dominador, os mamelucos destróem os portos do Líbano, causando assim a paralização quase total do comércio com a Europa. A maneira irresponsável de governar desse povo, levou o império à anarquia, agravada pelas pestes, secas e terremotos e ao esfacelamento da sociedade.

Os golpes finais na dinastia vieram de fora. O primeiro, econômico, com o aparecimento dos portugueses nas águas do Oriente, ao abrir rotas marítimas diretas entre a Europa e a Índia. Os portugueses iniciaram a destruição sistemática de navios mercantis muçulmanos que navegavam no oceano Índico.

O segundo, militar. As relações entre os sultanatos mameluco e otomano deterioraram-se em fins do século XV. Entre 1485 1490 os dois Estados travaram uma guerra. Os mamelucos foram superados pelo exército otomano que, além de mais numeroso, havia adotado canhões e armas de fogo.

Tártaros: Séc. XV
No século XV a região da Ásia – do centro para oeste – foi invadida por Tamerlão. Foi uma época de decadência para os reinos do Oriente. Tamerlão arruinou Alepo, Damasco e outras cidades da Síria. Apesar de seu vandalismo, no Líbano a Montanha manteve sua independência econômica, cultural e política. tornando-se um refúgio contra os invasores.

Bibliografia [+]

HISTÓRIA ANTIGA E MEDIEVAL
– CHALLITA, Mansour Este é o Líbano. Associação Cultural Internacional Gibran, Rio de Janeiro, 1976.
– LEWIS, Bernard O Oriente Médio: Do advento do cristianismo aos dias de hoje, tradução Ruy Jungmann. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1996.
– ROUSSET, Paul História das Cruzadas, tradução Roberto Cortes de Lacerda. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1980.
– SALEM, Jean O Povo Libanês – Ensaio de Antropologia – Ed. Van Grei, São Paulo, s.d.p.

HISTÓRIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
CHALLITA, Mansour Este é o Líbano. Associação Cultural Internacional Gibran, Rio de Janeiro, 1976.
ISMAIL, Adel Le Liban Histoire d’un Peuple. Al Makchouf, Beyrout, 1965.
LEWIS, Bernard O Oriente Médio: Do advento do cristianismo aos dias de hoje, tradução Ruy Jungmann. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1996.
MASSUD, RUBENS – Aspectos Libaneses, sem editora, Natal, RN, 1952. (xerox – original no Clube Zahlé)
ROUSSET, Paul História das Cruzadas, tradução Roberto Cortes de Lacerda. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1980.
SALEM, Jean O Povo Libanês – Ensaio de Antropologia – Ed. Van Grei, São Paulo, s.d.p.

HISTÓRIA DE ZAHLÉ
Trecho do livro, autor do manuscrito: Bispo Gregório Atta – arcebispo de Homs e Hama.

OS MELQUITAS
KHATLAB, Roberto – Os Melquitas – Ed. Eparquia Grego-Melquita Católica no Brasil – São Paulo, 1993

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