História de Zahle

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História do Líbano
História de Zahle

Primeiros Tempos

Como muitas outras cidades antigas, Zahlé foi construída às margens de um rio: o Bardauni.

Localizada no centro do vale da planície da Bekaa, a região mais fértil do país, a cidade sempre desempenhou um papel importante na economia da região, sendo conhecida desde muito tempo como o celeiro do Líbano. Tem sua história intimamente ligada à antiguidade. A planície da Bekaa, também chamada de Cele-Síria servia de ponto de união entre o Mediterrâneo e o interior do país. Muitos mercadores da Antiguidade passavam pela Bekaa transportando suas mercadorias para os portos de Tiro, de Sidon, de Beirute e de Trípoli até Damasco, Palmira ou Homs, Hama, Bagdá e mais além. Uma via de comunicação do comércio da Fenícia marítima com a Babilônia e a Mesopotâmia era a via Sul-Damasco.

A antiguidade da cidade de Zahlé pode ser comprovada por vestígios de monumentos antigos onde se praticavam cerimônias de idolatria a deuses pagãos e sacrifícios expiatórios. Esses monumentos foram desaparecendo devido a grandes terremotos e desmoronamentos que abalaram várias partes do país em diferentes épocas, enterrando a cidade antiga. O próprio nome da cidade atesta este fato, pois “zahl” significa desmoronamento. Há que se lembrar também o nome de Nossa Senhora de Al-Zalzalé ou Terremoto, padroeira da cidade.

Outro fato que não se pode deixar de considerar foi a invasão, nesta região, de exércitos de conquistadores através dos tempos, que destruíram seus templos e monumentos. Ali acamparam assírios, caldeus, hititas, persas, egípcios, gregos, romanos, árabes, cruzados e tártaros.

Para se comprovar a antiguidade da cidade de Zahlé, recorre-se ainda às declarações do padre jesuíta Pierre Martin, em seu livro ‘História do Líbano’, editado em Beirute, que diz: “O padre Blanchet, jesuíta, ouviu, do monsenhor Inácio Ajuri, bispo Greco-melquita de Zahlé, a seguinte declaração, quando este falava de sua diocese: “A Diocese de Zahlé é também chamada de Bispado do Paraíso (ou Firdaus) porque certas tradições antigas situam o Paraíso terrestre nesta região.”

As suposições dos historiadores vão mais além ao afirmarem que o dilúvio teria submergido a região da Bekaa e consequentemente Zahlé, e que seus efeitos são ainda visíveis nos vales profundos e nos montes, em formas de esqueletos petrificados de animais aquáticos.

A região onde se encontra a cidade de Zahlé teria sido povoada pelos arameus, que teriam dado continuidade ao povoamento da planície da Bekaa. Os arameus teriam desenvolvido aí o culto da natureza, propagando o paganismo e a idolatria por toda a região, dominando a Síria, o Egito e países vizinhos.

Vestígios de uma fortaleza jônica encontradas na região, com inscrições romanas dedicadas a Júpiter Heliopolitano, leva a crer que também deve ter existido em Zahlé um templo dedicado a esse deus, tal como nas outras localidades das redondezas.

Nas encostas e colinas que dominam a cidade existem grutas e “janelas” que remontam ao neolítico e que teriam servido de moradia para os primeiros habitantes da região. Neste local existe um convento denominado Santo Elias de Tuk. Escavações arqueológicas realizadas no local em 1911 mostraram vestígios de prensas ou moinhos para a extração do azeite. No mesmo local foram encontradas moedas que levavam o nome de Constantino, o primeiro imperador romano cristão, que reinou de 306 a 337 e talvez tenha sido ele o construtor do convento de Santo Elias de Tuk.

Todos estes fatos demonstram a antiguidade da cidade de Zahlé.

Existem muitas controvérsias a respeito do nome ‘Zahlé’. Para alguns historiadores, ela seria a mesma que Ablia, para outros, Seleukia e para outros, ainda, Calcis. Por isso, torna-se difícil saber exatamente qual o nome antigo desta cidade antes de sua destruição por um terremoto. Se não há certeza quanto ao nome, pelo menos há o consenso de que a antiga cidade se tornou conhecida após o terremoto que a soterrou, sobrevindo depois um desmoronamento (zahl) que a levou para o fundo do vale onde corre o rio Bardauni, ficando-lhe o nome. Depois disto Zahlé levou longo tempo para ser reconstruída, talvez devido ao medo de que algum novo desmoronamento repetisse os horrores da primeira devastação. A localidade onde estava a antiga cidade talvez fosse no próprio vale em que se encontra Zahlé hoje.

Depois da morte de Maomé em 632, chefes árabes voltam sua atenção para a Síria e Líbano conquistando este território em 633. A destruição quase total de todo o mundo romano e helênico é consequência direta do avanço árabe em direção ao mar. A partir de então, os antigos nômades do deserto se introduzem cada vez mais em direção à costa e em maior número no Líbano, dando origem a uma arabização do país.

A Guerra Santa (jihad) ordenada por Maomé destrói rapidamente a homogeneidade dos centros urbanos cristãos.

Mas os árabes que haviam se estabelecidos no Líbano antes da conquista, como os gassanidas, são quase todos originários do Iêmen e os que chegaram na época da Guerra Santa, depois da conquista, pertencem ao grupo dos Qais (kaissitas). A rivalidade que nasceu entre os iemenitas e kaissitas fez com que eles se separassem em dois grupos.

Época Moderna

Em fins do século XVll e início do XVlll já existia um grande antagonismo político e partidário entre os kaissitas e iemenitas do Líbano. Estas divergências se transformaram em lutas constantes. O Líbano herdou este antigo antagonismo e a luta entre as duas tribos se acirrou. O país ficou dividido entre estes dois partidos, que se rivalizavam cabendo a vitória ora a um, ora a outro, conforme o poder e prestígio de um ou outro chefe. O partidarismo dividiu a cidade e os cidadãos. Nos arredores de Zahlé, a aldeia de Kami pertencia aos kaissitas e lliin a seus adversários, os iemenitas. Ambas foram destruídas durante a época da batalha. A maior parte da Bekaa era habitada por tribos de beduínos iemenitas.

No Início do século XVlll, Zahlé fazia parte do patrimônio feudal dos emires Lamiitas. Esses emires pertenciam à religião dos drusos (religião fundada no ano 1.000 pelo califa fatímida Al-Hakim). Os drusos se tornaram mais fortes e mais prestigiados, tanto na região de Zahlé como na Bekaa, e seu número aumentou com os que vieram da região de Matn, distrito dos Lamiitas: estes cristãos e drusos.

Em Zahlé cada um dos emires possuia um hauch (feudo). Cada hauch pertencia a um príncipe que lhe dava o nome. Esta era a situação da cidade no primeiro quarto do século XVIII.

Os antigos moradores de Zahlé eram libaneses vindos do Durzul e de Ablah (localidades próximas a Zahlé) fugidos da perseguição dos emires feudais dessas localidades, e que foram acolhidos pelos lamiitas.

Quando alguma nova família queria se estabelecer em Zahlé, deveria primeiro pedir licença ao emir em cujo bairro ou quarteirão pretendia morar. Depois de estabelecida, a família se tornava cliente do emir dono do bairro que, em troca, lhe oferecia proteção. Assim, formou-se em Zahlé um pequeno núcleo cristão estabelecido num feudo Lamiita. Assim também foi que a nova Zahlé começou a se repovoar e progredir.

Nos bosques da cidade e nas florestas que a circundavam havia muita caça. Havia aí uma fonte chamada Ain Asuailibi (denominação atual), havia também um moinho. O emir Murad, que possuia um feudo na cidade, reconstruiu este moinho sobre os muros do antigo. Este moinho tomou o nome de Moinho de Murad e existe até os dias de hoje. Foi o primeiro moinho que se construiu no século XVIII após a construção da nova Zahlé.

Em 1720, com o desenvolvimento da cidade, o bispo Eftímios Fadel Maluli, católico melquita, transferiu a sede episcopal de Ferzul para Zahlé, principal centro melquita da atualidade no Líbano. Ao mesmo tempo, os religiosos de São João de Chuair construíram, na mesma cidade, o convento de Mar Elias doado mais tarde aos religiosos Salvatorianos. Nesta época, os ritos religiosos orientais, tanto o católico quanto o ortodoxo, eram celebrados na mesma igreja de Nossa Senhora. Os católicos só construíram suas igrejas depois da separação entre os dois ritos.

Ainda em decorrência do desenvolvimento da cidade, as artes e ofícios de Zahlé ficaram conhecidos por toda a região e por todo o Líbano. Zahlé tornou-se um centro de convergência dos produtos do país.

Em 1750 muitos libaneses da região da Bekaa e de Baalbek foram para Zahlé aí se estabelecendo. Foi neste ano também que uma grande nevasca caiu sobre a cidade trazendo a fome e a desolação para a região. Pouco tempo depois, em outubro de 1759, um terremoto destruiu a igreja de Nossa Senhora que quando foi reconstruída recebeu o nome de Nossa Senhora de Zalzalé. Em novembro houve novo terremoto. As casas e igrejas de Zahlé foram reconstruídas com a ajuda dos emires locais. Este e os anos que se seguiram foram de penúria para a população, agravados com a peste que assolou o país aniquilando grande parte da população principalmente nas cidades de Damasco, Alepo e Zahlé. O número de mortos foi tão grande que a população apavorada se refugiou nos conventos só voltando para suas casas quando a epidemia terminou.

No ano de 1760 Ras Baalbek cidade próxima a Zahlé também foi destruída por um terremoto. A população se refugiou em Zahlé estabelecendo-se no quarteirão que até hoje tem este nome.

Reconstruída, a cidade de Zahlé se torna em 1790 o centro comercial dos cereais em geral. Os zahliotas compravam cereais no Hauran, em Homs, na Síria, e no Monte Calamun. Este comércio atraiu grande número de forasteiros para Zahlé. Os zahliotas compravam também rebanho de carneiros da região de Hama na Síria, dos árabes beduínos da Bekaa, de Baalbek e de outros lugares.

A indústria têxtil se generalizou envolvendo grande parte da população. Seus tecidos eram levados para o Hauran, Trípoli, Homs e outras localidades. O principal produto da região era o algodão cru que vinha de fora em estado bruto e era aí tratado, cardado e fiado. Depois, as mulheres bordavam com fios de seda nestes tecidos que seriam usados na confecção de roupas masculinas e femininas. Havia em Zahlé o chamado “armazém do algodão” que era o centro de operações e funcionava como a bolsa de hoje.

Outro ramo do comércio local era o do alcatrão que servia de remédio para camelos.

A prosperidade da cidade, devido ao comércio e à indústria provocou a inveja dos drusos locais e de localidade próximas que decidiram, com a ajuda dos emires, tomarem a cidade para moradia. Há conflitos e os drusos vencidos deixam a cidade temporariamente.

Em 1799 já havia um comércio bastante próspero entre Zahlé e o porto de Akka. Transportavam e vendiam vinho e outras bebidas para o exército francês que sitiava a cidade. Os drusos começam a lhe interceptar a rota que passava pela Bekaa. Houve então combates entre drusos e caravanas de Bikfaya a serviço dos emires Lamiitas. Em decorrência dessas e outras divergências por volta de 1825 já se percebia um declínio nas indústrias de Zahlé. Uma das mais afetadas foi a de fabricação de tecidos de algodão.

A partir de 1845 as divergências entre drusos e cristãos aumentam. Zahlé estava dividida: havia o partido Baaubekita formado pelas famílias originárias de Baalbek e o partido Rassi que agrupava as famílias originárias de Ras Baalbek. Depois de vários combates os drusos são novamente derrotados. Porém, esta segunda derrota só serviu pra aumentar o ódio que sentia pelo seu inimigo.

Intermediando a questão estava o bispo Basilios Chaiat que reuniu os zahliotas para tentar dissuadí-los dos combates armados, mas não obteve sucesso. O Bispo vai a Beirute encontrar-se com o Ministro do Exterior que era o representante do sultão de Constantinopla para tentar restabelecer a paz no país que se encontrava à beira de uma guerra civil. Pelo acordo os zahliotas teriam que recolher suas armas, mas eles resistiram.

Na mesma época, o cônsul francês de Beirute, foi a Zahlé como intermediário entre zahliotas e drusos. Pelo acordo os zahliotas poderiam continuar armados desde que se servissem das armas somente para sua defesa pessoal. A carta dos zahliotas ao cônsul dizia, entre outras coisas: “Pelas informações que nos chegaram consta que os drusos vieram nos atacar forçados pelos proprietários de feudo; não há dúvida de que o Líbano não terá paz nem tranquilidade enquanto os chefes gozarem de privilégios e regalias que o emir do Líbano lhes dispensa em troca de serviços que estes lhes prestam; regalias estas que o emir lhes retira a seu bel prazer.” Todos os esforços para o desarme foram inúteis.

A Guerra de Zahle

A partir de 1845 as divergências entre drusos e cristãos aumentam. Discórdia aumenta entre os dois partidos. (Nochuf e Nomatn). Os zahliotas, querendo ajudar seus compatriotas de Matn, resolvem enfrentar os drusos. Infelizmente a cidade de Zahlé estava dividida: havia o partido Baalbequita, formado pelas famílias originárias de Baalbek e o partido Rassi que agrupava as famílias originárias de Ras-Baalbek. Depois de vários combates, os zahliotas venceram. Porém, esta segunda derrota dos drusos só serviu para aumentar o ódio que estes sentiam pelo seu inimigo.

Intermediando a questão estava o bispo Basilios Chaiat, que reuniu os zahliotas para tentar dissuadí-los dos combates armados, mas não obteve sucesso pois os zahliotas não deixaram suas armas.
1845 – Bispo vai a Beirute encontrar-se com o Ministro do Exterior (representante do sultão de Constantinopla) para tentar restabelecer a paz no país. Pelo acordo feito, os zahliotas teriam que recolher suas armas; mas eles resistiram.

Na mesma época, o cônsul francês de Beirute foi a Zahlé como intermediário entre zahliotas e drusos. Permitiu que os zahliotas continuassem armados, mas somente se servissem das armas para sua defesa pessoal. A carta dos zahliotas ao consul dizia, entre outras coisas: “Pelas informações que nos chegaram consta que os drusos vieram nos atacar forçados pelos proprietários de feudos; não há dúvida de que o Líbano não terá paz nem tranquilidade enquanto os chefes gozarem de privilégios e regalias que o emir do Líbano lhes dispensa em troca de serviços que estes lhes prestam; regalias estas que o emir lhes retira a seu bel-prazer.”

Todos os esforços para o desarme foram inúteis.

Em outubro de 1845 o exército de Namik paxá cerca Zahlé e começa a desarmar seus habitantes. A cidade ficou cercada por tropas até que todas as armas fossem recolhidas. Cumprida esta exigência o paxá seguiu para o sul do Líbano. Este cerco causou grande prejuízo ao comércio da cidade.

Enquanto isso, o emir Béchir continuava antagonizando os zahliotas. Suprimiu o triunvirato que governava a cidade e colocou um representante no lugar, chamado Nicola Arcach (O Bigarrado); isto causou uma revolta dos zahliotas, que queriam governar a cidade a seu modo. Os zahliotas expulsam o Bigarrado e restabelecem a república chefiada pelos anciãos da cidade.

Este fato, aliado ao fato dos zahliotas serem amigos do Consul da França irritou ainda mais o emir, os drusos, alguns lamiitas, os mituali e o consul inglês.

A cidade de Zahlé estava assim constituída: tinha uma junta municipal (“majlis baladi”) composta por chefes locais. Esta junta era partidária, politicamente, do emir Béchir Assaf rival e competidor de seu homônimo e parente emir Bachir Ahmad. Este, pediu ao paxá de Beirute (Assad paxá – simpatizante druso) para que boicotasse os zahliotas. O paxá de Beirute ameaçou ocupar a cidade se os habitantes insistissem em contrariar o governador geral (emir Béchir).

Em maio de 1858 chega a Zahlé Mr. R. J. Dodds, ministro protestante, com o intuito de fundar uma missão evangélica. Foi expulso pela população. O ministro deixou a cidade e foi se queixar ao cônsul inglês.

Nesse mesmo ano o emir Hassan lamita substitui o emir Béchir no poder. Os zahliotas enviam um pedido a Khorschid paxá de Beirute pedindo a substituição do governador local por um governador otomano. Com isto, estavam reivindicando o seu desligamento do Líbano a fim de fazer parte da Síria.

As autoridades superiores de Constantinopla aceitaram o pedido de desligamento total da cidade de Zahlé do Líbano e a anexação de seu governo ao governo da Síria. É indicado, para governar a cidade um substituto do vizir de nome Sadik.

Esta situação não foi do agrado dos emires lamitas que até então dirigiam os negócios públicos. Além disso, a cidade ficou dividida internamente existindo divergências até entre as famílias e clãs locais.

O Massacre de 1860

Em 1860 administrativamente o Líbano estava dividido em dois governos chamados “caimacãos”: um governado por governador cristão, outro governado por governador druso.

Esta divisão aumentou a discórdia entre drusos e cristãos que, alimentada por rancores locais e particulares, acabou provocando violentos conflitos no Líbano, vitimando milhares de cristãos, pois, já antes do massacre de 1860, reinava, na cidade de Zahlé a discórdia e desunião. Essa discórdia provinha do fato de que no comércio e na indústria a cidade de Zahlé havia prosperado muito mais que suas vizinhas, monopolizando o comércio de cereais na planície da Bekaa. Os drusos, principalmente, eram seus inimigos mortais.

Os drusos, do Líbano, elaboraram seus planos através de uma organização secreta (Khaluat), que funcionava como lojas maçônicas: absolutamente fechadas aos não drusos. Para isso se uniram aos seus compatriotas de Wadi-El-Taim e do Hauran, jurando a destruição de Hasbaya, Deir-El-Khamar e principalmente Zahlé

Quando atacaram, incendiaram as aldeias cristãs do Matn e depois tomaram traiçoeiramente Zahlé e também a incendiaram. A intervenção do chefe libanês José Karam limitou os massacres mas não impediu a marcha dos invasores e a matança se propagou pelo Líbano Meridional.

Houve uma pausa nos conflitos. Porém, dez dias depois, a luta recomeçou. Os zahliotas receberam a promessa de ajuda de José Karam. Os zahliotas pediram um encontro, mas Karam se negou a atendê-los, alegando que os emires lamitas não queriam o encontro porque ainda estavam ressentidos com os zahliotas por causa dos acontecimentos anteriores. Em represália os zahliotas incendiaram a localidade de Kafr Seluan, onde estavam reunidos.

Em junho de 1860 um grupo de homens de Zahlé e Baalbek se reuniu em Ferzul, cercanias de Zahlé, para conter o ataque druso. Os drusos são contidos. Diante dessa derrota os drusos resolveram destruir e acabar com a cidade.

Os drusos reuniram-se na planície da Bekaa onde encontram os drusos de Hauran, sob o comando de Ismail Al-Atrach. Atacaram Hasbaya e Rachaia. Os cristãos aí refugiados, confiando na proteção do governador turco, Korchid paxá, deixaram-se desarmar . Os turcos, então, abriram as portas da cidade aos assaltantes e permitiram que seus próprios soldados tomassem parte no massacre dos cristãos.

Depois desse massacre, Al Atrach junta-se aos beduínos e xiitas de Baalbek e de outras regiões e acampam em Qab-Elias (cercanias de Zahlé). O imad juntamente com os drusos do Líbano também acampam perto de Zahlé, que fica só com o lado norte aberto. Isto significa o cerco de Zahlé.

Os drusos, ajudados pela traição de Khorchid paxá contra os zahliotas, invadiram a cidade. Um grande número de zahliotas que havia se refugiado no Convento da Companhia de Jesus também foram mortos, pois os drusos invadiram o Convento e depois atearam fogo ao edifício. Depois de matar, roubar e incendiar , os drusos foram avisados pelos munadi que não lhes seria permitido pernoitar na cidade. Quando anoiteceu, os invasores se retiraram: a cidade apresentava, então, um aspecto desolador.

Em nota do tradutor, o autor diz que o incêndio de Zahlé foi o têrmo da discórdia entre os drusos e os zahliotas sem mencionar os massacres que se praticaram contra os cristãos de Deir El-Khamar, onde os cristãos aceitaram o asilo oferecido pelo comandante turco, foram desarmados por este e encerrados no pátio central onde todos foram mortos. O autor nada diz sobre os massacres havidos em Damasco, onde havia 25.000 cristãos pacíficos, que não eram maronitas. Na Europa, um grito de reprovação respondeu ao anúncio de tal calamidade. A má fé dos drusos não podia ser negada, nem tão pouco a cumplicidade do governo turco. Na opinião da França e de toda a Europa uma intervenção se tornara necessária.

No final de junho 1860 navios de guerra da Turquia e outras potências chegaram ao porto de Beirute para tentar apaziguar as discórdias no país. Chegou também Fouad paxá (alto comissário turco) investido de poderes ilimitados. Fouad paxá queria resolver a crise antes da chegada dos franceses. Ficou em Beirute o tempo necessário e em seguida se deslocou para Damasco, para salvar a metrópole do Islã de uma ocupação européia.

Em Damasco, Fouad paxá pronunciou sentenças de morte a todos que pudessem fazer revelações indiscretas aos franceses.

Zahle Reconstruída

Para a reconstrução, Zahlé recebeu ajuda da Europa, principalmente da França, através de uma campanha feita pelo padre Charles Lavegerie, fundador da Sociedade dos Padres Brancos, tendo sido, mais tarde, elevado à categoria de Cardeal. Fundou em Jerusalém o seminário de Saint’Anne ou Marçat as-Salahya.

Fouad paxá em outubro de 1860 ordenou que se desse a Zahlé o título de cidade.

Parte do exército francês acampado em Qab-Elias, ajudou os zahliotas na reconstrução da cidade. O intérprete junto aos franceses era o zahliota Ibrahim Abu Ragi Maluf.

A Igreja Ortodoxa de São Nicolau foi reconstituída graças aos donativos mandados pela Rússia e à generosidade dos habitantes de Alexandria, angariados pelo Bispo Metódios Saliba.

Os padres da Companhia de Jesus restauraram seu convento de Mualaca e construíram um orfanato que foi, mais tarde, comprado pelo governo turco, para servir de residência de seu governo. Napoleão lll se empenhou junto ao sultão Abdul Majid para que o governo turco reparasse dignamente os prejuízos materiais e humanos. Foi construído um orfanato onde se recolheram órfãos e crianças, que passaram a receber instrução em árabe e francês.

O bispado Grego-Católico de Zahlé foi restaurado e ganhou nova imagem de Nossa Senhora da Salvação mandada pelos católicos da Áustria. Em 31 de julho de 1861 o Bispo Basilios Chahyat implantou em Zahlé o Cômputo Gregoriano adotado por toda a Europa, e deixou sua residência no Convento de Tuk pela nova residência restaurada.

Assim Zahlé readquiriu seu antigo esplendor e retomou sua vida indústrial e comercial. Em 31 de maio de 1861 o destacamento francês desocupou a cidade e voltou a Beirute.

Zahle depois de 1860

Zahlé mereceu o título de cidade porque:
1-) devido a sua privilegiada situação geográfica à beira do rio Bardauni.

2-) a pressão que a partir de 1860 se exerceu sobre a população do resto do país, determinando um movimento de êxodo para esta região que oferecia algumas garantias de segurança, contribuiu para que Zahlé tivesse uma evolução demográfica. Esta situação se acentuou ainda mais em 1920 e 1930 por “leva” de população armênia e assíria, calculadas em 3.500 pessoas vindas da Turquia.

3-) a atividade agrícola atraiu para Zahlé numerosas famílias do Hermel e de Ras Baalbec, calculadas em cerca de 3.000 pessoas. Este crescimento elevou o número da população para aproximadamente 45.000 habitantes.

Paralelamente à evolução demográfica e também por causa desta evolução, fatores econômicos e políticos contribuíram para o desenvolvimento da cidade no que diz respeito à administração, comércio, técnicas administrativas e educação.

Capital Administrativa

Como cabeça de comarca do Muhafazat da Bekaa, a cidade é a sede da “Corte de Apelo”, compreendendo uma Câmara Civil e Criminal, Quartel General da Polícia para a Bekaa, um Centro Administrativo onde estão representados, a nível de diretor de Departamento ou Chefe de Serviço, os principais Ministérios do Estado. A esta função administrativa, Zahlé deve em grande parte, seu papel de pólo de atração.

Centro Ativo de Comércio e Evolução Técnica

O primeiro impulso dado à atividade comercial de Zahlé foi devido à construção, no final do século XIX de uma rede ferroviária ligando Beirute a Damasco. Mouaalkat, um dos quarteirões de Zahlé tinha a função de estação ferroviária para escoamento da produção frutífera e de hortaliças da Bekaa para a Síria ou para Beirute.

Um comércio atacadista centraliza o conjunto das operações comerciais da região, sobretudo da Bekaa do norte.

Zahlé centraliza também o escoamento da produção de cereais e parte da produção de frutas e legumes para o mercado internacional, a saber: Síria, Kuwait, Arábia Saudita.

A instalação do Quartel General do Exército em Rayak e Ablia, localidades muito próximas de Zahlé, muito contribuiu para este desenvolvimento comercial. Este fato, aliado à uma posição geográfica favorável, permitiram à cidade desenvolver uma intensa atividade comercial e agrícola, principalmente no campo do vestúario. Zahlé é também o centro de compras e abastecimento de grande número de aldeias da província da Bekaa. O excedente da produção local serve para abastecer o mercado internacional. Zahlé exporta seus produtos para a Síria, Kuwait e Arábia Saudita entre outros países.

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